Sidney Ferreira Ribeiro é pescador artesanal na praia de Astúrias, no Guarujá. Mexerica, como é conhecido, conta muitas histórias de pesca e de mergulho, mas a que ficou marcada, para ele, foi a de um descuido.
Há 30 anos, ele praticava a pesca submarina e sempre foi cuidadoso. Um dia, teve um acidente raro, mas que pode acontecer. Para descer ao fundo do mar e procurar peixes, ele sempre usou luva na mão esquerda e todos os demais equipamentos necessários. Naquele dia, ele e um amigo decidiram fazer um lanchinho e foi aí que ele tirou a luva para descascar algumas laranjas. Depois de comerem, caíram na água.
Na metade do caminho, antes de chegar no fundo, ele notou que estava sem a luva, mas seguiu. Chegou ao fundo e colocou a mão esquerda na pedra para se apoiar e começou a procurar os peixes.
Quando ele tentou se mover, sentiu que tinha alguma coisa prendendo sua mão esquerda: uma linha com anzol estava ali e entrou entre seu dedo e a aliança. Ele puxou e não conseguiu se soltar. Pensou em pegar a faca, mas tinha deixado no barco.
O problema é que ele estava apenas com o ar dos pulmões. Por fim e em desespero, ele puxou bem forte a linha, ela arrebentou e ele subiu. Desse dia em diante ele nunca mais usou a aliança no dedo, ela foi para um cordão no pescoço. A esposa reclamou, mas entendeu.
Uma distração pode nos custar muita coisa, a pesca exige cuidados, estratégias e equipamentos de segurança!
Ilza Lins de Jesus é beneficiadora de camarão na comunidade de Rio do Meio, no Guarujá.
Com mais de três décadas dedicadas à pesca, nada foi fácil.
Dona Ilza conta que muitas vezes ouve que ela trabalha como um homem. Neste meio, isso é considerado um elogio
Conquistar espaço e respeito numa atividade predominantemente masculina foi uma tarefa árdua, mas ela nunca se deixou abalar, enfrentou o preconceito e continua lutando para que seus direitos sejam respeitados.
Uma mulher trabalha como uma mulher em qualquer atividade!
Gênisson dos Santos veio de uma família de pescadores e pescadoras e aprendeu a arte da pesca ainda menino. Chegou em São Vicente, na Baixada Santista, vindo de Pacatuba, em Sergipe, cheio de sonhos.
Com ele ouvimos sobre as diferenças na realização da atividade e a burocracia. Segundo ele, no Nordeste as coisas são mais fáceis, mas onde tiver água e peixe ele não desiste, segue firme. Aqui ficou e exerce sua atividade com orgulho.
No Brasil existem muitas diferenças entre nomes de espécies, artes de pesca, leis municipais e estaduais, mas a paixão pela atividade é a mesma por todo o país!
Valton Bezerra pescador artesanal e redeiro na comunidade de Sítio Conceiçãozinha, no Guarujá, foi nosso professor em um encontro cheio de conversas, laçadas e nós.
Seu Valtinho aprendeu a pescar com seus pais. Na família todos são pescadores e pescadoras. Foi também com os pais que ele aprendeu a confeccionar as redes de pesca.
Sob a orientação do Seu Valtinho, fizemos pequenas redes para colocar compras, para levar água, frutas ou livros. Algumas saíram meio tortas, outras perfeitas, mas ele não deixou ninguém desistir.
Aprendemos que para as laçadas apenas as mãos não são suficientes, é preciso uma boa dose de paciência e precisão!
Natália Dionizio aprendeu a pescar com o marido e o sogro. Hoje, a pesca é o seu lugar de fala e aconchego. Ser uma mulher na pesca não é fácil, mas ela gosta de desafios e tira de letra.
Sempre atenta, Natália conta que estava vendendo caranguejos na estrada e um homem parou seu carro e, sem descer, perguntou o preço. Em seguida, ali mesmo, de dentro do carro, abriu o porta-malas e pediu que ela colocasse lá os caranguejos.
Ela desconfiou, fingiu que colocou e fechou o porta-malas. Imediatamente o carro saiu, mas ela e os caranguejos ficaram.
É preciso estar atento, na pesca, na venda e na vida! Um pouco de desconfiança é sempre bom!
Kally Molinero é pescador artesanal e está como presidente da Colônia Z-23 em Bertioga.
As Colônias de pescadores são muito importantes. São locais de prestação de serviços jurídicos, de representação e defesa da atividade perante os órgãos públicos. Os pescadores e pescadoras pagam uma contribuição anual e são assistidos em várias frentes.
Kally, como pescador, sabe das necessidades para exercer a atividade, dos problemas que os pescadores e pescadoras enfrentam no dia a dia. Ele fala com orgulho sobre estar como presidente e poder, de alguma forma, ajudar os colegas de profissão.
A saudade de ir para o mar permeou todo o nosso encontro, quem é pescador não pode viver longe da água!
